o que é trabalho?
construindo contornos para limites borrados
‘Pre Scriptum' (um p.s. que vem no início do texto):
“Este livro [texto] não oferece respostas a estas preocupações e perplexidades. Respostas são dadas diariamente no âmbito da política prática, sujeitas a acordo de muitos; jamais poderiam se basear em considerações teóricas ou na opinião de uma só pessoa, como se se tratasse de problemas para os quais só existe uma solução possível. O que proponho, portanto, é muito simples: trata-se apenas de refletir sobre o que estamos fazendo".
Emprestei essa citação da Hannah Arendt, do livro A Condição Humana, para ressaltar que trabalho, assim com dinheiro, é tema sensível, objeto de desigualdades interssecionais as quais não me proponho aqui resolver ou endereçar; falo apenas da minha realidade que eu sei se encontra dentro de uma grande bolha de privilégios.
Cresci em uma família CLT. Para mim, trabalho sempre foi sinônimo de ter uma chefe, bater ponto das 8h às 17h e tirar 30 dias de férias remuneradas.
Quando casei, estranhei demais a vida do meu marido, que se dividida entre duas empresas, trabalhava eventualmente aos finais de semana, mas ia ao cinema no meio da tarde de uma quarta-feira.
Aquele modelo não funcionava muito bem na minha cabeça. Até que, com o passar do tempo, comecei a ser seduzida pela liberdade de não ter que pedir autorização, de ir e vir, de poder desenhar a própria vida, de ser dona do meu próprio tempo.
Quando pedi demissão para tocar as minhas próprias empresas, quase entrei em parafuso com o grande paradoxo que é empreender.
Ao mesmo tempo em que se tem liberdade para fazer como quiser, o peso da responsabilidade e do resultado cai exclusivamente sobre um único ser humano. Decidir quanto se quer/precisar trabalhar, criar e executar um plano de comunicação, decidir qual a meta de faturamento, definir um pro labore.
Um eterno monólogo em que ora se veste o chapéu de chefe, ora de funcionária.
Não fossem os acordos complexos o suficiente, me vejo borrando cada vez mais as linhas entre vida pessoal e profissional. Sou uma pessoa que gosta muito de dar contornos, de visualizar as coisas em caixinhas - planejadora, afinal de contas. Ao mesmo tempo, as decisões que venho tomando nos últimos anos têm me levado para um lugar que não cabe em uma definição, muito menos em uma caixa.
E com isso, os limites entre o que é e não é trabalho ficam cada vez mais borrados. Moro na Villa, que é trabalho, mas é a minha casa, viro amiga dos meus clientes e tenho amigos que são clientes, viajo à trabalho, mas encontro amigos por onde vou. Escrevo aos finais de semana porque eu preciso colocar ideias para fora e porque faz parte do meu plano de comunicação.
Semana retrasada passei o feriado em Floripa. O motivo da viagem foi participar do primeiro evento presencial do Pequeno Tablado, um laboratório de empreendedores do qual faço parte tanto como participante, como equipe.
Portanto, trabalho, certo?
Cheguei dois dias antes. Na segunda de manhã fui surfar com uma amiga - que conheci no Tablado - e tivemos um encontro extra oficial dos participantes na praia.
A aula de surf claramente faz parte da vida pessoal, mas e o almoço na beira da praia com esse grupo de empreendedores?
Networking? Parte da minha atribuição como gestora da comunidade? É trabalho?
Semana passada fui para Belo Horizonte, novamente com objetivo duplo.
Fomos em quatro mulheres visitar uma amiga que acabou de ter bebê e está morando lá.
Consegui combinar essa viagem de amigas com o encontro anual da minha turma de formação de planejadores financeiros, colegas que hoje considero amigos (trabalho?).
Lá, também aproveitei para tomar um café com os participantes do Tabaldo de BH (trabalho?). Tentei encaixar um café com uma cliente, mas não deu para conciliar mais essa agenda.
As viagens são exemplos pontuais que escancaram as linhas borradas, mas acabam sendo reflexo de uma vida com muita “plasticidade”, como me definiu uma amiga.
Vivo uma grande contradição interna. Ao mesmo tempo em que necessito de um grau elevado de liberdade em tudo o que faço, preciso de contornos claros. Vou além, acredito que são justamente os contornos muito bem desenhados que sustentam essa plasticidade.
Tenho tido essa conversa com muitos clientes autônomos e cada vez mais tenho percebido, na minha vida e na deles, que o planejamento financeiro ocupa justamente esse lugar: cria sustentação para a vida que a gente quer viver. Como se os limites que forem postos nos permitam explorar até onde vai esse limite. Ao passo que, se não temos clareza dele, ficamos aquém de até onde podemos ir, sem ousar olhar para o horizonte, frente à incerteza de onde estamos.
Não é preciso planilhas mirabolantes, sou adepta do simples, de um sistema que funciona para cada vida, com o básico bem feito.
Tudo passa pela separação das vidas pessoal e profissional. Vou chamar de PF e PJ, mas funciona mesmo para quem não tem um CNPJ e ainda faz a gestão na pessoa física.
A premissa, na teoria, é simples:
Todo o dinheiro que entra fruto do trabalho vai para uma conta profissional (quando não existe um CNPJ, designa-se uma conta para esse fim). Dali saem também todas as despesas inerentes ao trabalho (impostos, contador, compras de materiais, insumos e, o mais importante, seu salário fixo, em um mundo ideal).
A vida financeira da pessoa física, por outro lado, é sustentada por esse salário fixo, que sai da conta PJ e é transferida para uma conta de uso exclusivo da PF.
atendi uma cliente médica que recebe em três contas diferentes; duas PJs e uma PF. o simples ato de separar essas três contas e determinar um valor fixo de transferência para a conta pessoal foi suficiente para ela começar a ter muito mais clareza do dinheiro que entra e sai
Assim, tudo que é pessoal é pago com a conta pessoal e tudo que é referente a trabalho é pago com a conta profissional.
parêntese aleatório; li ontem que a Gisele Bundchen trata o seu ‘eu profissional, modelo de sucesso’ como ‘ela’ e a sua vida pessoal como ‘eu’. foi a maneira que ela encontrou, desde de muito nova, para não se deixar afetar tanto pelas críticas. gosto muito das linhas borradas entre os vários eus, mas achei interessante de auxiliar na separação PF x PJ.
Um salário fixo dá contorno: dita quanto a PJ precisa trabalhar e quanto a PF pode gastar. Sem esse grau de clareza, para um autônomo que vive grandes oscilações de renda, é realmente difícil criar a coragem de viajar, de tirar férias, de diminuir as horas de atendimento. São passos no escuro. Um bom planejamento financeiro, no fim, ilumina.
Mas, ainda assim, não é suficiente para responder à pergunta do título. Em busca de respostas, lembrei do livro de onde tirei a citação que inaugura o texto. Hannah Arendt dá três definições para trabalho: labor, trabalho (work) e ação:
i) Labor é o que fazemos para sobreviver; em um ciclo sem fim. O resultado do labor não é algo que fica ou que agrega ao mundo, mas é imediatamente consumido.
ii) Trabalho gera resultados que ‘ficam’ no mundo e não são imediatamente consumidos.
iii) Por fim, a Ação é a manifestação do que ela chama de pluralidade humana. É o que faz os seres humanos se distinguir uns dos outros. É por meio da ação que respondemos à pergunta ‘quem és?’ e que se encontram as relações e, principalmente, a liberdade.
A crítica de Arendt, na década de 50, mas que continua atual, é que somos reféns ao labor. Ainda que estejamos “produzindo”, na verdade estamos presos em um ciclo infinito de produção e de consumo.
Me fez pensar nos textos por aqui. Por mais que sejam ‘duráveis’, são rapidamente consumidos, o que leva até a escrita a uma lógica de produção, ao mesmo tempo em que são também trabalho e ação. (uffffff)
Por mais que novas tecnologias surgem (IA) para supostamente aliviar a carga de labor ou de trabalho para liberar mais espaço para a ação (liberdade), continuamos presos à lógica do consumo.
São muitas as críticas a esses conceitos de Arendt, mas nem por isso deixam de ter seu valor teórico. Não acredito na separação dos tipos de trabalho, já que estão todos interligados. Na importância do labor de quem cuida da casa para que eu possa escrever, nas minhas atividades profissionais, que pagam as minhas contas, possibilitam o meu consumo e que são, ao mesmo tempo, trabalho e ação.
O convite das reflexões propostas pelo planejamento financeiro é para nós, que somos privilegiados com a possibilidade de pensar no próprio trabalho, possamos dar um passinho para fora do automático, do ciclo vicioso do consumo, de pagar a fatura do cartão de crédito e, aos poucos, focar na construção da vida que faz sentido para cada um, abrindo mais espaço para a manifestação de quem somos, com mais liberdade para a ação e para viver a vida que queremos realmente viver, e não consumir.
um convite especial
Estou criando um novo projeto para levar os textos para o mundo off-line. Em breve enviarei um texto impresso e por correio, com um convite para continuarmos o diálogo fora das redes. Caso queira receber o texto em casa, é só preencher suas informações por esse link. Não tem custo e prometo que não vai ter nenhum spam:
quero receber um texto por correio :)
Com carinho,
Giulia
P.S. Agora sim no lugar certo. Se quiser esticar a conversa ou me acompanhar por outra lente, tento tentado estar mais presente no Instagram, vou adorar te receber por lá.
